Projeto Infiltrado (Desde abril de 2007)

Será que um Projeto considerado perfeito, acima da Lei e corrupto, já não conta com infiltrações em seu âmago? Ou há um plano de comentar bastidores e posições dos que arquitetam essas manobras, sem filtros e de forma crítica? Pode ser que haja um esquema pronto para infiltrar nesses sindicatos negros e trazer a público o que muitos não sabem por acontecer nesses bastidores. Ao descobrir o significado do Projeto Infiltrado, você pode colaborar para sua própria execução.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Aborto

Mapa do Aborto no Mundo (Clique na figura)
A idéia desta série surgiu antes de o ministro Temporão ter dito ser a favor de plebiscito e tal. Queria fazer uma matéria de fôlego, bem polêmica e explicativa. Se cercasse o aborto direitinho, ia ser um belo material, com muita coisa boa, venda de remédios, clínica clandestina, religiões... Só tinha um pequeno problema... Eu não era mulher!

Foi ai que tive a maior sorte! A Leida escalou uma das minhas mentoras dos tempos de estagiário: Luciana Neves. Putz! Não deu outra. Formamos uma dupla muito legal. Eu apavorando de um lado: vamos para lá, para cá e tal. E ela pedia calma, sempre centrada e prudente. Não é que conseguimos tudo o que queríamos e mais um pouco?

Tinha que ter era filmado, ela no Mercado Central enrolando uns moleques com cara de marginais que vendiam a garrafada abortiva para ela, enquanto eu ia dando voltas para roubar uma foto. Os seguranças do Mercado já estavam me manjando, jeitão de turista, tirando foto para todo lado, mas sempre descrevendo a mesma rota, nas mesmas lojas até que: click! Perdeu! Deu eu!

Depois para achar a clínica de aborto! Tivemos umas 15 dicas, de empregadas de parentes de amigos de vizinhos de colegas de namoradas do cicrano. Tudo furado. Elas se mudavam rapidamente. Às 18h30, praticamente desistindo, fomos quase que por obrigação, já fazendo piadinhas do nosso triste destino, á última da lista. Putz! Deu nóis de novo! Leiam a matéria que foi muito bom. Saímos de lá sérios, depois de falar com o médico. Depois um olhou para o outro e rimos até! batemos as mãos: give me five! Aí veio a euforia! Putz! Na última! Ti falá viu Lu! nem dormi direito nesta série! O ruim é que sempre você acha que pode melhorar (e pode) e acaba perdendo o sono depois que não tem mais jeito de mudar as coisas... mas teve muito bom! Foi a série mais completa que fiz até hoje. para ver as matérias mais completas, com as matérias da Luciana Neves , entrem no site do jornal Hoje em Dia.

(Hoje em Dia - 06/05/2007)

Fotos: Mateus Parreiras





(Garrafada abortiva vendida livremente no Mercado Central de Belo Horizonte)

Aborto Legalizado

Mateus Parreiras

REPÓRTER

O aborto é proibido no Brasil, exceto em casos de estupro e risco de morte para as gestantes. Mas, na prática, está legalizado. A Portaria 1.508, de 1º de setembro de 2005, do Ministério da Saúde, protegeu as vítimas de violência sexual, que não precisam mais recorrer às delegacias para registrar Boletim de Ocorrência, a fim de conseguirem abortar em qualquer hospital. Ao mesmo tempo, permitiu que o aborto seja praticamente legal no país. A denúncia é de médicos e do coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias Criminais (Cao-crim) do Ministério Público Estadual de Minas, promotor Joaquim José Miranda Júnior.

Eles criticam a falta de controle nos hospitais, e relatam casos de grávidas que fingem ter sido violentadas para abortar com dinheiro público. Situação que põe em dúvida os 2.067 abortos legais em 2006, feitos em hospitais do país, sendo 103 deles em Minas Gerais, e que surgem num cenário onde gestantes brasileiras fazem largamente controle de natalidade, com remédios proibidos como Cytotec e as fórmulas caseiras, que podem ser adqüiridos em praças, no Centro de Belo Horizonte, em camelódromos e pela internet, com pouca interferência da polícia. Produtos geralmente advindos de um comércio negro, que envolve roubos de cargas e tráfico nos centros de saúde e fronteiras nacionais, além de fazerem mal à saúde.

O assunto é tema de movimentações no Congresso Nacional das frentes pró e contra aborto. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, se disse favorável à discussão, por meio de plebiscito. No país, segundo estimativa do Ministério da Saúde, ocorreram, em 2006, 1,1 milhão de abortos clandestinos. A curetagem - raspagem do útero depois de aborto natural ou induzido - foi o segundo procedimento mais desempenhado em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), perdendo apenas para o parto normal. Foram 220 mil atendimentos. Números que ilustram o que os envolvidos concordam: aborto, hoje, é caso de saúde pública no país.

Enquanto não há uma definição sobre a legalização ou não do aborto, o coordenador do Cao-crim, promotor Joaquim José Miranda Júnior, ataca as brechas da portaria 1.508. «A portaria do SUS tem de ser mudada, pois ela permite que mulheres aleguem ter sido estupradas, e façam aborto, com dinheiro público, sem que haja comprovação do crime por ocorrência policial. Com isso, ocorre tanto o assassinato de vidas em potencial - dos fetos -, quanto a impunidade de estupradores. Temos vários relatos de fatos assim, alguns deles absurdos, mas que são difíceis de se comprovar para que gerem denúncias», ataca o promotor.

De acordo com o coordenador do Cao-crim, os crimes deveriam ser julgados pelo Tribunal do Júri, mas o número de processos é quase nulo. «É difícil de se comprovar um aborto criminoso ou infanticídio. São casos em que as vítimas não têm voz nem vez, precisando de delatores e de investigação» aponta. Casos como o do médico Haddel Rachid Daer, 73 anos, preso em abril deste ano, numa clínica de sua propriedade, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, junto a uma mulher de 26 anos, grávida de três meses e o suposto pai da criança. O casal teria pago R$ 1 mil para que ele executasse o aborto.

A referência técnica da Coordenadoria de Atenção à Saúde Popular da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, Aléxia Baeta Machado, afirma que as mulheres são submetidas a análises e que não poderiam ludibriar os hospitais, alegando terem sido estupradas para abortar, a despeito do que médicos e Ministério Público denunciam. «As datas do ataque sexual e da concepção são checadas e a gestante é submetida a avaliações de médicos, assistentes sociais ou psicólogos», afirma.

Por outro lado, defensores do aborto acreditam que mesmo se valendo de subterfúgios, as mulheres garantem um tratamento mais seguro nos hospitais do que na clandestinidade. «Não cabe aos médicos julgar se uma pessoa está mentindo ou não. Se o médico não acredita no que faz, que peça demissão. Já é muito difícil tomar a decisão de abortar, quanto mais se submeter a tratamentos clandestinos que podem levar à morte», defende a socióloga e coordenadora do núcleo de saúde da mulher da UFMG, professora Anayansi Correa Brenes.

«Estupro é usado como pretexto»


Entrevista com médico que denuncia fraudes

Histórias de mulheres grávidas que conseguiram abortar alegando estupro são comuns em corredores de hospitais da capital. Nas rodas de conversas, médicos e enfermeiros. «O aborto já está legalizado no Brasil. Como a mulher não precisa mais apresentar um boletim de ocorrência policial com registro de que foi vítima de violência sexual e engravidou, estão aparecendo gestantes com histórias fantásticas, que conseguem abortar pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com dinheiro público», revelou ao HOJE EM DIA um ginecologista obstetra. O médico, que já trabalhou na Maternidade Odete Valadares, Hospital das Clínicas (HC) e Maternidade de Betim, pediu para preservar sua identidade, pois teme ser punido pelos centros de saúde onde ainda atua. Ele contou à reportagem, com detalhes, como é fácil conseguir uma intervenção destas pelo SUS na capital mineira.

Nos hospitais em que trabalhou, encontrou muitas mulheres que se diziam vítimas de estupro para justificar o aborto?

Não digo que eram muitas. Mas, comigo mesmo houve casos onde dava para ver que elas estavam inventando. Trabalhei no Odete Valadares, Hospital das Clínicas e Maternidade de Betim. Muitas das pacientes que desconfiei eram jovens. Elas formulavam histórias onde teriam engravidado em consequência de violência sexual. Os colegas comentam bastante sobre isto. Contam também as experiências deles. Como acabam obrigados a colaborar com a farsa, porque o hospital não teve competência para analisar o caso e barrá-lo, nem o Ministério da Saúde impediu que fosse tão fácil.

Como sabe que é mentira?

Dá para saber. Tem muito caso absurdo, que não dá para acreditar que o hospital deixou passar. Há uns meses, por exemplo, chegou uma jovem, de 19 anos, no Hospital das Clínicas. Ela estava com mais ou menos 16 semanas de gravidez. Tinha passado pela triagem e estava com uma autorização do HC para fazer o aborto. Dizia que tinha ido a um terreiro de macumba e que lá deram umas coisas para ela beber. Disse que viu luzes e extraterrestres e que depois desmaiou. Acordou dentro de um círculo, nua e violentada, e depois soube que tinha engravidado.

Ela apresentou remorso?

Não. Nenhum. Pelo contrário. A ausência de emoções mostrava um discurso preparado, muito automático, artificial mesmo. Qualquer um veria que era mentira. Se um caso desses passa, por mais absurdo que ele possa parecer, então uma historinha mais bem elaborada ganha crédito sem problemas.

Como foi a intervenção?

O processo é demorado. A gente introduz 200 microgramas de misoprosol - que é a mesma coisa do remédio proibido cytotec - na vagina, a cada 4 horas, até que o colo se dilate e expulse o feto. Foi demorado. De um plantão para o outro.

Como o senhor ficou depois, sabendo que ela mentia e que estava abortando o filho que fez de forma natural?

Nunca disse isso para ninguém, mas, na hora que fui fazer o procedimento nela, pedi para um outro colega introduzir a medicação. Não tenho opinião formada sobre o aborto. Não sou totalmente contra nem a favor. Mas aquilo não parecia certo de jeito nenhum. Alguma coisa me parou ali, no momento. Não podia participar do aborto daquela criança. (M.P.).

ABORTO

_ Em BH, vítimas de violência sexual podem buscar ajuda nos hospitais das Clínicas da UFMG, Municipal Odilon Behrens, Júlia Kubitschek e Maternidade Odete Valadares

_ A profilaxia determinada pelo Ministério da Saúde inclui pílula do dia seguinte e medicamentos contra hepatites B e C, sífilis e Aids

_ O HC/UFMG registra apenas dois casos de mulheres que fizeram aborto legal, mas atende uma média de cinco mulheres, por mês em busca da profilaxia

_ O Hospital Municipal Odilon Behrens registrou três casos de aborto legal, desde março de 2003, e 29 casos de violência sexual neste ano

_ Na Maternidade Odete Valadares, o aborto legal representa 7% de todos os procedimentos

_ 31,3% dos casos de morte materna de mulheres entre 10 e 49 anos, em Belo Horizonte, ocorreram por complicações de aborto

- Estima-se que a violência sexual atinja 12 milhões de pessoas a cada ano no mundo

_ 2 mil abortos legais são feitos no Brasil todo ano devido a violência sexual e risco de vida para a gestante

_ 1 a cada 9 mulheres recorre ao abortamento para interrompê-lo, por não desejar o bebê

_ A 5ª maior causa de internação pelo SUS se deve ao aborto

_ O aborto consta como a 2ª a 4ª causa de morte materna no país

_ 220 mil curetagens pós-aborto são realizadas todo ano na rede pública, no país

_ R$ 1,10 é o preço médio da sonda urinária, vendida em drogarias, muitas vezes utilizada para provocar aborto

_ R$ 20 é o preço da garrafada abortiva comercializada no Mercado Central. São mais de 20 ervas misturadas ao álcool

_ R$ 200 é o preço do Cytotec vendido no mercado negro

«Em hotéis do Centro, meninas conseguem Cytotec»

Mateus Parreiras

REPÓRTER

Talvez mais expostas do que a maioria das brasileiras a uma gravidez não planejada, e certamente indesejada, as prostitutas de Belo Horizonte têm orientação clara sobre o assunto. Segundo uma das lideranças da Associação das Profissionais do Sexo da cidade, identificada como Patrícia, em caso de gravidez, as associadas devem fazer uso de remédios abortivos. «É Cytotec na hora, sem nem conversa», afirma. «Lógico, a menina vai ter filho de uma pessoa que ela nem mesmo conhece? De um cliente que ela nem sabe quem é? Elas engravidam e, se precisarem, ajudo a comprar o remédio e ensino a usar. Basta tomar dois comprimidos e colocar - no colo do útero - mais dois», indica.

Patrícia mesmo já passou por três abortos desta forma. Mas o assunto ainda é controverso, inclusive para a categoria. Numa reunião das profissionais realizada na Associação Cultural da UFMG, à qual o HOJE EM DIA teve acesso, elas se mostraram divididas. «Tem meninas que não concordam. Porque só as desmioladas é que ficam grávidas, já que têm como prevenir, com pílula do dia seguinte, anticoncepcionais etc», enumera Patrícia.

Comprar o remédio, Cytotec, é mais fácil do que parece. «Nos hotéis do Centro, onde as meninas trabalham, tem gente que consegue. Tenho o telefone de umas duas pessoas que levam para mim onde eu quiser. Custam R$ 200 quatro comprimidos. Não se vai mais em clínica de aborto. Só conheço um caso que não deu certo com o Cytotec. Precisou de outra dose», relata a profissional do sexo, que cuida de três crianças abandonadas por colegas.

Trabalhando sozinhas, expostas à violência na escuridão do alto da Avenida Afonso Pena, nas esquinas do Bairro Bonfim ou dentro dos hotéis da decadente «Zona Boêmia» do Hipercentro da capital, elas relatam histórias surpreendentes. Como a da prostituta Camila, 29 anos, há quatro na profissão. «Quando fiquei grávida, já tinha dois filhos pequenos. Não podia ter a criança, porque precisava de trabalhar e não tinha nem dois meses que estava na vida. No hotel que ficava é que arranjei tudo», lembra.

A jovem disse que um homem que freqüentava a casa de prostituição lhe ofereceu tratamento. «Não era um cara bonito nem simpático. Ficou me falando que depois ia me levar para trabalhar numa boate e tal. Fui na casa dele. Me disse que tinha de beber conhaque e rum antes», conta Camila. Depois dos passes, o homem e a prostituta tomaram um táxi. «Fomos para a Avenida Paraná. Ele pagou 2 horas em um hotel barato. Continuei bebendo. Ele passou umas coisas em mim e, depois, subiu na minha barriga e ficou pisando nela», conta.

Anestesiada pela bebida e pelas dores, Camila lembra sentir que algo escorria dela. «Não quis olhar o que era, com medo de ver meu filho. Depois, o homem me disse que eu tinha de manter relações sexuais com ele. Perguntei por que, mas só dizia que tinha de fazer isso», relata. Uma semana depois, recuperada, a prostituta descobriu que estava grávida de gêmeos, que perderam um, mas acabou tendo a outra filha.

(Hoje em Dia - 07/05/2007)

Clínica clandestina em BH

Mateus Parreiras e Luciana Neves

REPÓRTERES

O soar da campainha, acionada por entre as grades de um portão de metal, precede a abertura da porta de madeira do casarão antigo, que aparentava estar abandonado. Do interior iluminado, surge um homem vestindo longo jaleco branco com brasões médicos, de sapato branco, calça jeans e camisa escura. Ao se aproximar, depois de destravar eletronicamente o portão metálico, revela ser homem de semblante cansado, de uns 40 anos, desleixado, com cabelos negros e corte de cantor sertanejo. Ele permite que o casal entre, convida-o a se assentar lado a lado em um banco e, de forma direta, confere: ½Você já tem ultra-som?”.

A pergunta do suposto médico não deixou dúvidas de que naquele casarão antigo, localizado na Rua Alvarenga Peixoto, próximo à Avenida Amazonas, no Bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, funciona uma clínica clandestina de aborto. A constatação foi da equipe do HOJE EM DIA, que, na última sexta-feira, esteve no endereço. Passando-se por um casal de amigos em busca de um local para que uma sobrinha imaginária, 18 anos, grávida de dez semanas, pudesse interromper a gestação, os repórteres foram recebidos por ½doutor Cássio”.

Surpresa com a objetividade do aborteiro, a jornalista disse que o procedimento seria para uma sobrinha, com ovário policístico - que impede a regularidade da menstruação - e que ela já tinha o exame. ½De qualquer forma eu faço o ultra-som aqui. O aborto é feito por meio de sucção, com uma cânula de metal. Funciona como um aspirador e eu acompanho pelo ultra-som. Não termina enquanto não sugar tudo. Não é demorado. É feito em 10 minutos e ela sai andando”, assegurou. A gravidez avançada não seria impedimento. ½Aqui fazemos até os três meses. Já quer deixar marcado? São R$ 2 mil, em dinheiro. Posso até abaixar o preço, mas não depende de mim. Sou contratado, não dono”, apressou-se em informar o profissional.

A anestesia é local. O ½bloco cirúrgico” e os instrumentais utilizados não são vistos pelo paciente. Apenas no horário marcado para o procedimento, a pessoa tem acesso à sala, mas não é permitido acompanhante. Se houver, terá que aguardar do lado de fora. ½É tudo esterilizado ou descartável”, garantiu o suposto médico, que afirma fazer tudo sem ajuda de outros profissionais.

A discrição ainda pode ser observada do lado externo da clínica, o que chega a hesitar clientes em potencial. ½É proposital a aparência de abandono...”, afirmou ½doutor Cássio”, subentendendo a importância de driblar qualquer fiscalização. No imóvel, há apenas uma campainha do lado de fora, com orientação para tocá-la. Na parte interna, próximo à calçada, outra placa indica o número de um celular para marcação de consulta. O aborto pode ser feito a partir das 6h30, em dias combinados, inclusive aos sábados.

O temor de uma possível complicação é amenizado pelo ½doutor”. ½Não tem como ter hemorragia. Não faço cortes ou perfurações. Não encosta na parede do útero. Vai direto na estrutura onde fica o embrião. Mas se houver qualquer problema, temos condições de resolvê-lo. Por isso temos limites”, assegura.

Endereços estão sempre mudando

Encontrar uma clínica clandestina de aborto em Belo Horizonte não tem sido uma tarefa fácil. Para driblar possíveis fiscalizações, as mudanças de endereço são rotineiras, mas os aborteiros contam com uma rede informal de contatos e com a tolerância de alguns médicos e ginecologistas. As dicas geralmente são dadas por amigos de amigos cujas namoradas recorreram ao método, empregadas domésticas e outras conexões informais e dispersas. Além disso, tais estabelecimentos se tornaram mais raros, devido à larga utilização de remédios abortivos, como o Cytotec, e fórmulas caseiras.

Para encontrar uma clínica ainda ativa, a reportagem percorreu, durante uma semana, quatro prováveis endereços na capital indicados por antigos pacientes. Da região da Savassi, nos bairros de Lourdes e Santo Agostinho, os aborteiros haviam se mudado. No entanto, uma permanecia em funcionamento neste último bairro. Ginecologistas consultados, informalmente, disseram desconhecer colegas que faziam abortos, e preferiram a imparcialidade, sem apoiar ou demover a gestante diante da sua decisão.

O diretor científico da Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia de Minas Gerais (Sogimig), Frederico Péret, ressaltou que a perfuração do útero e uma conseqüente infecção são as principais complicações provocadas pelo aborto feito em clínicas clandestinas. ½Muitas vezes pode ocorrer a retirada incompleta do feto, o que leva a graves infecções. Outro problema é a perda da capacidade reprodutiva”. Frederico Péret afirmou que o risco de complicação decorrente da interrupção da gestação é maior quanto mais adiantada for a gravidez.

A membro do Conselho Regional de Medicina (CRM) de Minas Gerais, ginecologista Vera Ceravolo, considerou ½irresponsáveis” profissionais que se dispõem a interromper a gravidez de forma ilegal. ½O médico que aprende a fazer aborto nessas clínicas é o pior profissional, especializado em morte e não em salvar vidas. Se denunciado, ele é investigado e pode até perder seu CRM”, afirma. A assessoria do CRM informou não poder divulgar a quantidade de médicos investigados pela prática, alegando sigilo judicial. Também a Polícia Civil de Minas Gerais não dispõe de dados sobre mulheres que abortaram em clínicas ou detenção de médicos que praticaram o aborto de forma criminosa.

Violência sexual permite interrupção da gravidez

Mateus Parreiras e Luciana Neves

REPÓRTERES

O aborto legal no Brasil é permitido apenas nos casos em que a gestante foi vítima de violência sexual ou quando a gravidez oferece graves riscos para sua saúde. O juiz da 4ª Vara Cível de Belo Horizonte, Jaubert Carneiro Jakues, salienta que, nos casos de saúde, a análise inicial é feita pelo médico, que avalia a urgência do procedimento. «Se a mulher passa por uma situação de risco imediato, a decisão de interromper a gravidez é tomada na hora, pela própria paciente. Se não for capaz, essa decisão é feita pelo próprio companheiro ou pelos pais», disse. Caso haja tempo hábil, o laudo do médico deve ser anexado a um pedido de autorização judicial.

Segundo o magistrado, as liminares na 4ª Vara levam cerca de duas semanas para serem julgadas. «Podem até ser deferidas no mesmo dia, dependendo da urgência. Não demora muito, mas também não há o que prorrogar. É uma chancela do Judiciário, para que não haja uma atividade médica sem controle», afirma. Ainda de acordo com o juiz Jaubert Jakues, apesar de cientificamente haver polêmicas quanto à fase em que o feto é considerado cidadão, para a Justiça isso começaria desde a concepção. «Pela lei brasileira, a personalidade da pessoa humana começa com o nascimento com vida, embora a lei proteja os direitos do nascituro desde sua concepção», distingue.

Norma técnica

Publicada em 2006 pelo Ministério da Saúde, a Norma Técnica de Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes prevê, como profilaxia, a pílula do dia seguinte e medicamentos contra hepatites B e C, sífilis e Aids, o que tem evitado um possível avanço da gestação. Na capital, os centros de referência são hospitais das Clínicas da UFMG (HC/UFMG), Municipal Odilon Behrens (HOB), Júlia Kubitschek e Maternidade Odete Valadares - os dois últimos da Rede Fhemig.

Essas instituições de saúde são muitas vezes procuradas por prostitutas, potenciais vítimas de violência sexual. No HC/UFMG, de acordo com a assessoria de imprensa, foram registrados apenas dois casos de mulheres que procuraram o hospital em busca de um procedimento mais invasivo para interromper a gravidez. No entanto, o HC atende a uma média de cinco mulheres, por mês, que relatam ter sido violentadas sexualmente, e buscam a profilaxia. Já o Hospital Municipal Odilon Behrens registrou, neste ano, 29 casos de violência sexual. Desde março de 2003, quando o protocolo começou a ser usada pelo HOB, foram registrados três casos de aborto legal.

A chefe da Seção da Maternidade do Hospital Júlia Kubitschek, Maria do Rosário Pereira Gonçalves, afirma que a instituição é pouco procurada pelas pacientes com suspeita de gravidez em busca da pílula do dia seguinte. Ela acrescentou que a unidade ainda não precisou realizar aborto em função de uma gravidez indesejada causada por estupro.

Já na Maternidade Odete Valadares (MOV), a média de aborto legal corresponde a 7% de todos os procedimentos. No ano passado, dos 115 casos de violência sexual, oito chegaram à interrupção da gravidez. Já em 2005, das 164 mulheres que buscaram a MOV, seis tiveram que fazer o aborto. «O Boletim de Ocorrência não é obrigatório, mas 99,9% das mulheres que procuram a maternidade trazem o BO. Isso nos dá uma tranqüilidade de que elas não estão mentindo e que realmente foram violentadas», afirma o psicólogo do Serviço de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual da Maternidade Odete Valadares, Francisco Viana.

O ginecologista Ramon Luiz Braga Dias Moreira acrescenta que não é papel do médico ser detetive. «Não somos nós que temos que provar se a mulher está mentindo ou não. Quando ela chega ao hospital, assina uma série de documentos de responsabilidade. Além disso, o protocolo é demorado, ela passa por uma série de entrevistas antes de o aborto legal ser indicado.»

Frases:

Estupro e risco à saúde da gestante são situações que permitem o aborto legal no Brasil

Baixos índices de planejamento reprodutivo, persistência de relações sexuais inseguras e má qualidade e acesso desigual aos serviços de saúde são justificativas costumeiras para a realização do aborto

Infecção grave e perda da capacidade reprodutiva são conseqüências do aborto clandestino

A Norma Técnica de Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes prevê, como profilaxia, a pílula do dia seguinte e medicamentos contra hepatites B e C, sífilis e Aids

Na Maternidade Odete Valadares, dos 115 casos de violência sexual, oito chegaram à interrupção da gravidez, no ano passado

(Hoje em Dia - 08/05/2007)

Máfia do aborto vende remédio proibido

Luciana Neves e Mateus Parreiras

Repórteres

Os descuidos com a prevenção sexual e com o planejamento familiar podem estar alimentando uma máfia do medicamento abortivo Cytotec. No Centro de Belo Horizonte, quatro cápsulas do remédio podem ser compradas por R$ 200. Com o advento da internet, o abortivo também é conseguido por meio da rede mundial de computadores, num prazo de 24 horas, após o depósito de R$ 300, com a garantia de entrega da encomenda por um motoboy.

Denúncia anônima feita ao HOJE EM DIA revela que o responsável pelo fornecimento do Cytotec na Avenida Santos Dumont, principalmente entre as ruas Rio de Janeiro e São Paulo, e nas imediações dos bairros Floresta e Lagoinha, regiões Leste e Noroeste da capital, respectivamente, é um policial civil, conhecido como “Né”. Ainda na ativa, ele reserva os dias de folga da delegacia para faturar nas ruas do Hipercentro. Seu ponto de referência é uma lanchonete localizada na Avenida Santos Dumont, atrás de uma banca de revista próximo a um ponto de ônibus.

A entrega da encomenda é feita de forma discreta. A negociação não é diretamente com ele, mas com alguns clientes de sua confiança, que fazem o pedido e recebem o produto, horas depois. Foi assim que a reportagem conseguiu o abortivo, entregue na Rua Sapucaí, na Floresta, na tarde da última sexta-feira. “Este é o melhor que tem. O brasileiro não é muito bom não. Este vem do Paraguai”. Apenas quando tem segurança, o remédio é deixado para ser pego, por não mais que alguns minutos, no interior de um orelhão, longe das câmeras do ½Olho Vivo” da PM, em horário e data previamente combina dos.

Mesmo nos dias de plantão, “Né” não abandona o posto. O sogro, um senhor baixo, gordo e grisalho, atua dentro da Pensão Mineira, na Rua Guaicurus, repassando a mesma mercadoria. Também a cunhada “Patrícia” o ajuda fornecendo para as “meninas” dos hotéis da zona boêmia. “Sempre tem alguém dando uma força. É tudo uma máfia. Às vezes, a radiopatrulha passa para pegar dinheiro com ele e encobrir a atividade”, afirma a fonte, que pediu anonimato temendo represálias e até mesmo a morte.

A pessoa acrescenta que “Né”, um moreno claro, alto e magro, de 32 anos, que sempre anda armado, “nunca fica com nada”. “A polícia sempre dá batida, mas nunca encontrou nada. Ele já teve que engolir papelote de cocaína para não ser flagrado”, conta a pessoa, que acrescenta outros produtos arranjados pelo policial - cocaí na, a R$ 10, o papelote, e o remédio Inibex, também a R$ 10, dois comprimidos. Misturado ao álcool, ele promove o mesmo efeito estimulante da cocaína. “No Centro, há outros vendedores, mas só Né fornece os três produtos. A grana é boa. Se não fosse, não estaria colocando tanta gente para trabalhar para ele, dia sim, dia não”.

O domínio da área por “Né” remonta aos tempos em que os camelôs ocupavam as calçadas do Centro. Disfarçado de ambulante, há mais de 11 anos ele comercializa os mesmos produtos que hoje continua vendendo. “Todos os profissionais são conhecidos. Todos sabem quem rouba, quem não rouba, quem trafica...”. Diante da denúncia, o inspetor Carlos Alberto de Oliveira César, da 21ª Delegacia de Polícia Civil, responsável pelo Hipercentro, informou que os dados do suposto policial seriam repassados para a Corregedoria para investigações.

(Hoje em Dia - 09/05/2007)

Foto: Inca

«Sociedade brasileira está pronta para debater aborto»

Mateus Parreiras

REPÓRTER

Empossado ministro da Saúde em 19 de março deste ano, o médico José Gomes Temporão causou polêmica ao trazer à tona, em seus discursos, a legalização do aborto no Brasil. Em entrevista concedida ao HOJE EM DIA, em Belo Horizonte, Temporão declarou que a «sociedade brasileira está pronta para debater o assunto». Questão que ele acredita ser «caso de saúde pública no país», e que poderia ser resolvida com maior esclarecimento e acesso aos métodos de planejamento familiar. «Principalmente a população mais pobre do Brasil se sujeita a procedimentos inseguros, por não ter a educação sexual e nem como arcar com métodos contraceptivos disponíveis», disse.

O aborto é um assunto controverso, ao qual muitos políticos costumam se esquivar. O senhor mal assumiu o Ministério da Saúde e já pretende tocar neste tema?

Não fui eu quem procurou o tema, mas foi ele quem me achou. Há uma grande necessidade de discussão na sociedade sobre o aborto, na perspectiva do planejamento familiar.

A Saúde nacional tem muitas urgências. O aborto é uma delas?

Estimamos que haja 1,1 milhão de abortos clandestinos no Brasil por ano. A curetagem pós-aborto é o segundo procedimento obstétrico mais comum na rede pública de serviços de saúde, depois do parto normal. Morreram no ano passado, no Brasil, 10 mil doentes com aids e 5 mil tuberculosos. Pois bem, só em 2007, 220 mil mulheres procuraram hospitais para fazer curetagem. O aborto é a quarta maior causa da mortalidade materna. Então, é um dos mais graves problemas de saúde pública.

E a saída seria uma consulta popular? Um plebiscito?

Temos hoje uma Lei rígida, que pune, mas não resolve o problema. A sociedade brasileira mudou muito nos últimos 20 anos e está pronta para esta discussão. Como esta questão específica envolve uma dimensão religiosa, moral e até filosófica, há dois espaços de discussão fundamentais: o Congresso Nacional e, se for decisão do Congresso considerar que a população deve ser consultada, o plebiscito. Hoje, com uma falsa proteção, tentando proibir o debate e fingindo que este problema não ocorre, principalmente entre as mulheres pobres, o que nós temos é morte, sofrimento e dor.

Qual a reação dos diversos setores a esta posição?

Recebi apoio de todos os lados, pois não há dúvidas de que esta é uma questão de saúde pública, que afeta, de perto, as mulheres brasileiras. Aliás, normalmente, os que decidem sobre abortar ou não, não são as mulheres, mas os homens. Às vezes até brinco. Pergunto: se os homens pudessem engravidar, será que o aborto continuaria na ilegalidade?

O que pode ser feito enquanto o Legislativo não se pronuncia?

Do Ministério da Saúde vai partir uma posição de implementar, na prática, uma política que já existe, que é a dos direitos sexuais e reprodutivos, onde a questão do planejamento familiar está colocada. Hoje, os mais pobres não têm acesso aos métodos anticoncepcionais. Não têm acesso à informação e à educação, necessárias para exercer, com consciência, a sua sexualidade, e poder definir o número de filhos e quando tê-los. Se isto for encarado de forma séria, a questão da gravidez indesejada, num sistema de saúde que funciona, passaria a ser algo eventual, aleatório.

2 comentários:

Paola Carvalho disse...

Adorei o blog, assim como todas as reportagens. Fico muito feliz de ter o privilégio de acompanhar a evolução do seu trabalho de perto. Te adimiro muito, sobretudo o estilo descritivo onde você consegue emprestar os seus olhos ao leitor. Isso é raro nas páginas de jornais hoje. Sucesso!

Anônimo disse...

Um novo service de ajuda á países onde o aborto não é legalizado salvou minha vida. Espero que possam ajudar a quem precisa também.
Por que o brasil ainda não é desenvolvido suficiente para encarar esta realidade.
Escrevam para service.abortion@yahoo.com
Boa sorte!

Contatos

projetoinfiltrado@gmail.com

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Repórter do jornal Hoje em Dia, o jornalista Mateus Parreiras cobre o dia a dia do estado no caderno Minas (cidades) e produz também reportagens especiais. Formado em 2004 pelo UNI-BH, e desde setembro daquele ano no Hoje em Dia, o jornalista já conquistou o I Prêmio de Jornalismo de Interesse Público 2007 do Sindicato dos Jornalistas de MG, o Prêmio Crea-MG 2006, Volvo 2006 e foi três vezes finalista do Prêmio Embratel, em 2005, 2006 e 2008.

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